A Cápsula do Tempo de Germano Bonow Filho

Andrea Bonow_6621

Assim como um garimpeiro que empreende longas e exaustivas jornadas na busca por tesouros, o pesquisador percorre arquivos e colhe depoimentos em busca da reconstrução de uma história passada.  A tarefa se torna mais ou menos difícil na medida do espaço temporal pesquisado e das condições de preservação dos documentos.

Em 2106 fui convidado para participar de um projeto da Fundação João Mangabeira cujo objetivo é a reconstrução da história do PSB do Rio Grande do Sul, de 1947 até os tempos atuais. Já nas primeiras reuniões de planejamento acreditávamos que nossa maior dificuldade seria a primeira fase do partido,até 1964, já que do período mais recente, 1985 até agora, havia muito material disponível e vários dirigentes vivos e ainda atuantes. Também havia à disposição algumas obras escritas por João Batista Marçal que nos indicava alguns caminhos e nos trazia boas informações, inclusive do primeiro período.

Mas foi em uma entrevista com Luiz Lopes Burmeister, um dos refundadores do partido em 1985, junto com Jair Krischke e outros, que descobrimos que ele também havia sido militante do PSB lá em seu início, quando ainda era estudante do Colégio Júlio de Castilhos e, ao lado de Flávio Tavares, ingressou nas fileiras socialistas. Nesta entrevista muitas coisas começaram a ser esclarecidas e ganhou força um personagem que desde o início era uma referência mas que, após o depoimento de Burmeister, tornou-se fundamental.

Seguindo nossa metodologia de trabalho, sempre que entrevistamos um militante ou ex-militante do partido, perguntamos se ele guarda algum documento da época, pois são importantes no processo de reconstrução histórica.

Andréa Mostardeiro Bonow é a filha caçula de Germano Bonow Filho, e conservou todo o material deixado por seu pai.
Andréa Mostardeiro Bonow é a filha caçula de Germano Bonow Filho, e conservou todo o material deixado por seu pai.

Alguns dos entrevistados guardam verdadeiros “tesouros”. Jair Krischke tem muitos guardados, inclusive as cédulas de dinheiro de uma “vaquinha” feita por companheiros para ressarci-lo de um pagamento do aluguel da sede partidária na época. Burmeister revelou ter algumas memórias guardadas em seu sítio, mas nos aconselhou a procurar Andréa, filha de Germano Bonow Filho. “Ela tem muito material dele guardado”, sinalizou.

Germano Bonow Filho foi fundador da Esquerda Democrática e do PSB, tendo inclusive presidido o partido. Entretanto, sua relevância vai muito além. Com uma trajetória de vida incrível, digna de ser contada, ele revelou-se o “fio da história” para nossa pesquisa. Procuramos a Andréa Bonow, que nos recebeu com imenso carinho e disposição em sua casa, e ela nos disponibilizou o acesso a um verdadeiro “tesouro” deixado por seu pai.

Organizado, transparente, honrado e corajoso, Germano Bonow Filho guardou praticamente toda a história da Esquerda Democrática e do PSB do Rio Grande do Sul: livros-atas, recibos,

telegramas, ofícios, jornais, panfletos, fotos, enfim, uma infinidade de itens, inclusive uma faixa utilizada durante o Movimento pela Legalidade (1961) e até mesmo correspondências de João Mangabeira. Todo este acervo foi deixado de herança para a família e a filha procurou preservar em memória do amado pai.

Os documentos “sobreviveram” à invasão e depredação de seu escritório, que também era sede do PSB, em 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas, e ao período da Ditadura Militar, onde qualquer material relativo a esquerda era considerado “subversivo”, e por isso muita coisa foi incinerada na época, já que a polícia costumava invadir as casas de possíveis militantes e levar preso quem fosse encontrado com material desta natureza. Mas um homem como ele não poderia deixar que estas importantes memórias fossem perdidas. Hoje, graças a sua dedicação, podemos recontar a história deste período a partir da sua herança.

Em uma época em que tudo é descartável,  Andréa Bonow nos trouxe a “cápsula do tempo” de seu pai. Tudo aquilo que ele guardou para que as gerações futuras pudessem saber quem foram, o que pensavam, defendiam, e como viviam os primeiros militantes do Partido Socialista Brasileiro no Rio Grande do Sul.

Obrigado Germano Bonow Filho!

Artigo publicado no site do Partido Socialista Brasileiro – PSB – Rio Grande do Sul em 20.01.2017

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *