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O Queijo e os Vermes

                Li “O queijo e os vermes – O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição” durante a disciplina de Medieval II e me identifiquei muito com o texto e com Menocchio. Fiz um trabalho e conversei muito sobre ele em sala de aula. É uma leitura que recomendo, pois ilustra bem o tratamento que os inquisidores davam a quem divergia de suas opiniões, comportamento esse que perdura até hoje em nossas sociedades. “Condenamos” quem diverge de nossa opinião, “agredimos” e “perseguimos” quem pensa diferente, principalmente quando ocupamos funções de poder.

                 O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg, historiador italiano, um dos pioneiros no estudo da micro-história, retrata a história de Domenico Sacandella, conhecido por Menocchio, um moleiro nascido em 1532 em Montereale, uma pequena aldeia nas colinas de Friuli (Itália), perseguido pela inquisição por suas ideias. Denunciado ao Santo Ofício, em 1583, sob a acusação de ter pronunciado palavras “heréticas e totalmente ímpias” sobre cristo, Menocchio foi levado aos tribunais da inquisição e morto na fogueira em 1599 aos 67 anos.

                 Carlo Ginzburg, é reconhecido por utilizar como recurso documental, fontes não utilizadas pela história tradicional, nesta obra, por exemplo, utiliza a analise de processos da inquisição para descrever a história de Menocchio, um homem comum, que se não fosse a escolha de Ginzburg jamais seria conhecido. Através de Menocchio, ele analisa a forma com que eram tratadas pela inquisição, as pessoas que demonstrassem pensamento divergente, e as relações de poder, a religiosidade, e os comportamentos da sociedade camponesa de uma pequena localidade no século XVI.

Essa é uma representação do Ilustrador Italiano Alberto Magri, que em 2015 lançou um livro de ilustrações de Menocchio. www.albertomagri.it
Essa é uma representação do Ilustrador Italiano Alberto Magri, que em 2015 lançou um livro de ilustrações de Menocchio. www.albertomagri.it

                 Menocchio era um homem controverso, que não escondia suas opiniões, e fazia questão de expô-las, sabia ler, escrever e somar, o que lhe proporcionara exercer algumas funções importantes em Montereale, inclusive de administrador da paróquia. Era bastante conhecido, e suas opiniões também, como ficou confirmado na investigação aberta. “Discute sempre com alguém sobre a fé, e até mesmo com o pároco” – Declarou uma testemunha. Suas críticas ao poder sacerdotal e aos sacramentos eram contundentes, mas a sua cosmogonia impressionou os inquisidores. “Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, o mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento…” Declarou Menocchio em um de seus depoimentos.

                 Em “O Queijo e os Vermes” Ginzburg analisa os processos de Menocchio, os depoimentos, e tenta relacionar as opiniões singulares do moleiro, com as pessoas com quem teve contato, filósofos, religiosos, mas principalmente com alguns dos livros encontrados em sua casa no momento de sua prisão, e que foram por ele mencionados em seus processos. Nesta lista encontrava-se a Bíblia em língua vulgar, uma versão do Alcorão, e outras obras como Decameron, Il Fioretto della Biblia, Il Lucidario della Madonna, porém, segundo a analise de Ginzburg, que comparou as citações com a literatura, não é possível afirmar que Menocchio participava de algum grupo, seguia alguma doutrina ou que sua cosmogonia se baseava em uma versão de alguns dos “livros sagrados”, embora em suas argumentações citava, vez por outra, alguma passagem destas obras.

                 Parece que Menocchio tinha sua visão de mundo baseada nas suas experiências, nas relações que desenvolveu durante sua vida e nas coisas que leu, uma mistura da cultura oral com a cultura escrita, que se misturavam em sua mente, formando sua visão singular de mundo.

Carlo Ginzburg, nascido em Turim, no dia 15 de abril de 1939, é um historiador italiano, conhecido como um dos pioneiros no estudo da micro-história. Autor de "O Queijo e os Vermes" Foto de Claude Truong
Carlo Ginzburg, nascido em Turim, no dia 15 de abril de 1939, é um historiador italiano, conhecido como um dos pioneiros no estudo da micro-história. Autor de “O Queijo e os Vermes” Foto de Claude Truong

            A leitura da obra de Carlo Ginzburg é muito rica, pois proporciona que, através da analise do micro cosmos, consigamos ter uma visão da inquisição, do comportamento de uma pequena localidade no século XVI, a partir de uma pessoa comum, um moleiro, sem liderança, não pertencente a nenhuma organização, que de diferente tinha apenas suas opiniões, construídas a partir de uma combinação de cultura oral e escrita, que em sua mente se misturavam de forma singular, e seu “estranho” hábito de expô-las livremente, o que por vezes ofendia a ordem estabelecida. Ter opiniões diferentes e expressá-las era o grande “crime” de Menocchio, e que embora não conspirasse contra o poder sacerdotal, apenas o contestasse, era considerado um subversivo, um herege.

                O Menocchio do século XVI buscava respostas para perguntas que nos inquietam até os dias de hoje e para as quais ainda não encontramos respostas.

1 thought on “O Queijo e os Vermes

  1. Muito bom Serginho. Gostei da história e da análise com os dias atuais. cada vez que penso na inquisição, valorizo mais à necessidade do espaço às diferenças!!! Um abraço

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